PACTO PARA O LANCEIRO NEGRO

Eu vi corpos de tropas mais numerosas e batalhas mais disputadas, mas nunca vi, em nenhuma parte, homens mais valentes, nem lanceiros  mais brilhantes que os da bela cavalaria rio-grandense, em cujas fileiras aprendi a desprezar o perigo e a combater dignamente pela causa sagrada das nações!

 

Quantas vezes fui tentado a patentear ao mundo os feitos assombrosos que vi realizar essa gente viril e destemida, que sustentou, por mais de nove anos, contra um poderoso império, a mais encarniçada e gloriosa luta!

[Giuseppe Garibaldi]

 

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19 de Setembro de 1835…

Trinta homens a cavalo invadiram a Ponte da Azenhaem Porto Alegre, que estava guardada, naquela noite, por uma patrulha militar do governo provincial composta de duzentos homens, chefiados pelo Visconde de Camamu. Durante o combate Camamu foi ferido e fugiu, carregando consigo os seus comandados e cedendo a primeira grande vitória aos rebeldes republicanos.

 

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20 de setembro de 1835…

Os Farrapos entraramem Porto Alegre, com o General Bento Gonçalves à frente das tropas. Iniciava-se o movimento separatista que, posteriormente, viria a ser conhecido como Guerra dos Farrapos ou Revolução Farroupilha.

 

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25 de Julho de 1836…

Bonifácio Tavares chicoteava o lombo do cavalo, enquanto o animal corcoveava ensandecido tentando derrubá-lo. Como escravo na estância do major veterano da Guerra Cisplatina Joaquim Teixeira Nunes, a sua principal tarefa era a doma de potros xucros. Firmemente agarrado aos arreios, o negro manteve-se irredutível sobre o animal até que este finalmente cedesse e parasse de corcovear, deixando-se conduzir por ele.

Foi quando um garoto surgiu gritando:

— Bonifácio, o patrão mandou chamá-lo!

— Tu sabes o que ele quer comigo, guri?

— Acho que é sobre a revolução – o menino confidenciou. – Pelo que ouvi, parece que o patrão resolveu tomar o partido dos republicanos!

Meia hora depois, Bonifácio apresentava-se na sede da fazenda, juntamente com os demais escravos da estância.

Durante algo em torno de uns quarenta minutos, os negros ouviram um inflamado discurso, proferido por um cidadão bem vestido que acompanhava o major Teixeira Nunes, sobre a conturbada situação política e econômica pela qual a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul estava passando. O sujeito – que somente muito mais tarde ele viria a conhecer como Antonio de Souza Neto, o General Neto – também falou sobre os ideais republicanos e sobre a própria revolução que já estava acontecendo. Mas ele só conquistou a atenção definitiva da plateia ao anunciar que o major estava convocando todos os escravos homens de sua propriedade para lutarem em prol dos farroupilhas. Em troca lhes seria concedida a tão sonhada liberdade. Que seria formado um corpo militar composto exclusivamente por negros e este seria comandado por renomados oficiais do exército republicano, dentre os quais o próprio patrão deles.

Movidos pelo entusiasmo do momento todos os escravos aderiram à convocação, de bom grado, inclusive Bonifácio. A visão do prêmio no final da estrada ofuscava-lhes o longo e tortuoso caminho a ser percorrido até ele.

Naquela mesma noite, Bonifácio encontrou-se com Rita de Cássia, a bela mulata com quem pretendia se casar e que trabalhava na cozinha da casa grande da fazenda.

— Fiquei sabendo que você se alistou no exército republicano – disse ela, com uma ponta de tristeza no olhar.

— É verdade – respondeu o negro. – Porém fiz isso pensandoem nós. Voupara a guerra em troca da nossa liberdade. E quando voltar, nos casaremos.

— E se você morrer durante os combates? O que será feito de mim? – ela indagou, não conseguindo mais reter as lágrimas.

— Não morrerei. Todavia se tiver de entregar a minha vida pela causa, o farei de bom grado, como um homem livre e honrado que luta por ideais nobres de justiça e de liberdade!

— Você está certo. Não morrerá – a moça declarou com uma sinistra expressão, ao mesmo tempo em que parava de chorar e estreitava o olhar. – Pois eu não permitirei!

— O que você pretende fazer, Ritinha? – Bonifácio indagou preocupado.

— Não se aflija, meu querido! Apenas apelarei aos espíritos dos nossos ancestrais para que o protejam. Vá para a sua guerra, cuide-se, lembre de mim todos os dias e lute com afinco! Quando você voltar, eu estarei esperando-o.

 

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28 de Julho de 1836…

No meio da madrugada um vulto de baixa estatura, camuflado pelas sombras da noite e totalmente encoberto por uma longa capa negra com capuz, deixou a estância sorrateiramente.

Meia hora depois, algumas batidas secas na porta de um casebre rústico, construído em meio à floresta nativa que cercava o município de Piratini, acordaram Guaraci. A bugra, já idosa e com uma aparência desagradável aos olhos – que lhe conferia a justa fama de bruxa –, levantou do pelego onde dormia e atendeu a inconveniente visita.

— Você? O que a traz aqui a uma hora destas? – indagou assim que reconheceu o rosto por baixo do capuz.

— Desculpe incomodá-la, mas estou desesperada! A senhora precisa me ajudar… – Rita de Cássia apelou.

A velha índia charrua escutou atentamente o que a garota pretendia fazer e, ao final, interpelou-a séria:

— A menina tem certeza de que é isso mesmo o que quer? Devo alertá-la de que mexer com certas coisas pode desencadear sérias consequências, além de incorrer em um alto preço a ser pago. Por isso, volto a perguntar: estás disposta a pagar o preço?

— Faço qualquer coisa para obter o que lhe pedi.

— Muito bem. Então retorne aqui na sexta noite a partir de hoje e traga consigo uma galinha viva, juntamente com uma mecha de cabelo, um pedaço da roupa e um objeto de uso pessoal da pessoa que será o alvo do ritual.

Assentindo em concordância e se despedindo, a jovem retornou à fazenda.

Lá chegando, Rita de Cássia dirigiu-se ao enorme galpão onde a peonada dormia. Entrou sorrateiramente e procurou até encontrar o namorado. Bonifácio Tavares dormia profundamente no canto oposto do galpão. Rita aproximou-se pé ante pé, abaixou-se e, sem acordá-lo, passou a mão na adaga do negro, com a qual cortou uma mecha de sua longa cabeleira e um pedaço da barra do bichará (poncho de lã) que o mesmo usava.

Só então, após deixar o galpão, da mesma forma evasiva como entrara, ela retornou aos seus aposentos na sede da fazenda.

 

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03 de Agosto de 1836…

Poucas horas antes do nascer do dia, ainda escuro, as duas mulheres reuniram-se sob a luz da lua cheia, nos recônditos mais escuros da floresta onde a bruxa residia. Ambas vestindo trajes longos e pretos.

— Você tem certeza de que é isso mesmo que quer? – indagou a bruxa novamente.

— Sim – respondeu secamente a outra.

E enquanto a menina limitava-se a assistir, convicta de estar fazendo a coisa certa, a índia degolou a galinha que ela havia roubado da estância, recolhendo todo o sangue da mesma em uma vasilha de cerâmica arredondada. Feito isso, com um pequeno galho de árvore, a velha lentamente desenhou um pentagrama com diâmetro do tamanho de uma pessoa e envolto por um enorme círculo no chão de terra batida. E depois arrumou os objetos de culto em torno do desenho cuidadosamente traçado. Após posicionar os cinco objetos (a adaga, o pedaço de tecido, a mecha de cabelo, a vasilha com o sangue da galinha e uma assustadora estátua de Baphomet) nas cinco pontas da estrela, a mulher cobriu todas as linhas da imagem com sal. E recitando palavras de invocação, acendeu cinco velas, uma branca e quatro negras, posicionando uma em cada ponta da estrela, junto ao objeto de culto ali colocado. A única vela de cor branca foi fixada junto à estátua do demônio com chifres e patas de bode.

— Dispa-se completamente, entre no círculo e deite com a cabeça para o Sul e os pés para o Norte! – ordenou a bruxa.

A garota prontamente obedeceu. Sentiu frio ao retirar a roupa, mas não reclamou e nem hesitouem fazê-lo. Adentrouo círculo, nua, deitando-se no chão de terra, sobre o pentagrama e na posição que a outra ordenara.

Tudo pronto, o verdadeiro ritual teve início.

Com os dedos indicador e médio da mão esquerda unidos, a bruxa tocou a própria testa e então a região genital, levando os dedos em seguida para o ombro direito. Depois repetiu a operação com a outra mão, encerrando o movimento no ombro inverso. Cada movimento foi acompanhado pela voz grave da mulher recitando um antigo cântico de invocação aos espíritos das trevas:

Oiad! Molap! Baqeoubi! Iehusoz! Gaoachma!

Ela apanhou a adaga do chão e traçou um pentagrama invertido no ar, recitando, ao concluir cada ponta da estrela, o nome de uma besta infernal:

Belial! Apollyon! Lúcifer! Baphomet! Satã!

Deitada no centro do pentagrama a garota tremia de medo, mas tirava da obstinação em ter o seu desejo realizado, a força necessária para suportar a pressão do ritual.

Foi quando a bruxa largou a faca em seu respectivo lugar no pentagrama e apanhou a tigela com o sangue. Ela ergueu-a em direção ao centro da estrela de cinco pontas, que coincidia exatamente com a região genital de Rita de Cássia, que servia ao ritual como altar humano, e gritou com a voz alterada:

In nomine Dei nostri Satanás Luciferi excelsi! Introibo ad altare Domini Inferi! Qui regit terram, Domini Satanás Rex Infernus!

Feito isso, bebeu um generoso gole do sangue e despejou o restante sobre uma Rita de Cássia perplexa, e que de tanto medo viu-se completamente incapaz de movimentar qualquer músculo de seu corpo lambuzado com o líquido quente.

Naquele instante, um trovão ribombou ao longe, e um forte vento soprou na clareira onde elas se encontravam, fazendo o corpo da garota gelar novamente.

— Pronto, está feito! – a bruxa anunciou. – Agora faça o seu pedido.

Assustada, a jovem, banhada em sangue dos pés à cabeça, precisou de todo o seu autocontrole emocional para proferir aquelas balbuciantes palavras.

— Q-quero apenas proteção para o meu amado Bonifácio! Que ele não morra e nem seja ferido nesta amaldiçoada guerra! Eu estou disposta o preço necessário…

— Assim seja feito! – gritou a bruxa. – Shemamforash Heil Satan!

Outro trovão se fez ouvir. E o vento cessou de repente.

O ritual estava completo. O pacto estava selado.

Rita de Cássia levantou, banhou-se rapidamente no córrego que passava ao lado da clareira onde o ritual fora executado, vestiu-se e ajudou a velha índia-bruxa a limpar o local. Pagou a quantia previamente combinada à mulher e retornou mais confiante para a estância.

Ao despontar do sol, a recém constituída tropa dos Lanceiros Negros iniciou a longa marcha rumo à primeira batalha.

 

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11 de Setembro de 1836…

Algo em torno de quatrocentos lanceiros negros, comandados pelo tenente-coronel Joaquim Pedro Soares e subcomandados pelo então major Teixeira Nunes, formavam a imponente cavalaria farroupilha que cruzava o arroio Seival e adentrava os Campos dos Menezes. A maioria montava a cavalo quase que em pêlo, a moda charrua. Como armas utilizavam apenas lanças compridas, facões e adagas, sendo que uns poucos dentre eles também dominavam o manejo das boleadeiras. Não usavam escudos de proteção, e sim grosseiros ponchos de lã enrolados nos braços que, quando não estavam em combate, lhes serviam também como cama, cobertor e protetor contra o frio e a chuva. Nos pés, usavam sandálias de couro cru. Sobre o peito nu, uma espécie de colete recobrindo o tronco. E na cabeça, uma “vincha” (braçadeira) vermelha, como símbolo da República Rio Grandense. Eram rústicos e disciplinados. Comiam somente se houvesse alimento e dormiam em qualquer local, tendo como teto o estrelado firmamento do Rio Grande do Sul. Mais tarde, seriam justamente estas vestimentas esfarrapadas, utilizadas por todo o exército republicano que lhes renderiam, no futuro, o epíteto de “Farrapos”.

A manhã já estava no fim e o seu estômago roncava de fome. Mas habituado à dura rotina dos lanceiros negros, Bonifácio Tavares não reclamava de nada. O negro seguia firme no seu lugar da fila, quando avistou ao longe as tropas imperiais, mais numerosas e bem melhores equipadas.

Aquela seria a sua primeira batalha e ele estava deveras ansioso. Medo? Nem um pouco. Sabia que poderia sucumbir nas próximas horas, mas se fosse esse o seu destino, ele estava decidido a cumpri-lo de bom grado, como um homem livre e honrado. E isso, para ele, assim como para os demais companheiros de armas, não tinha preço. Ter essa consciência era o principal combustível que os movia em frente, um verdadeiro tesouro de valor incomensurável.

Eles acamparam sobre uma coxilha, apenas dois terços da cavalaria farroupilha. A terceira parte da vanguarda dos lanceiros negros, havia sido posicionada na retaguarda das outras duas, como uma espécie de tropa-reserva. Comeram uns pedaços de charque seco com pão e se prepararam para a batalha.

A tarde chegou e com ela vieram as tropas imperiais. Quando os generais farrapos perceberam o ataque, o inimigo já os havia alcançado. O entrechoque dos dois exércitos foi violento e muitos perderam a vida logos nos primeiros instantes. Os sons da batalha ganharam os ares e o sangue maculou de vermelho o chão outrora verde.

Bonifácio usava o poncho enrolado no braço esquerdo para amortecer ou desviar os golpes das lanças e espadas inimigas, enquanto contra-atacava com a lança e a adaga. A sua primeira vítima foi um oficial inimigo, que morreu sem saber direito o que atingiu. A lança do negro perfurou o tórax do homem, partindo-se em duas e arrancando-o de cima do lombo do cavalo. Com a violência do choque, o próprio Bonifácio também acabou perdendo o equilíbrio e caindo ao chão. Desmontado, o corajoso lanceiro negro partiu para o corpo a corpo contra o inimigo. Com o facão em uma mão e a adaga na outra, o jovem escravo de 22 anos lutou bravamente, assim como os seus bravos irmãos de armas. Ele cortou um expressivo número de inimigos e matou outros tantos. Todavia, não sofreu sequer um mísero arranhão.

Entrementes, a despeito da valentia demonstrada pelos lanceiros negros, foram os imperiais que se impuseram e, em pouco tempo, adquiriram enorme vantagem sobre os cavaleiros farroupilhas, que acabaram acuados e cercados. Em questão de pouco tempo, se nada acontecesse para mudar a dramática situação, eles seriam derrotados e mortos.

Quando tudo parecia perdido, porém, algo totalmente inusitado aconteceu.

De repente, Bonifácio acreditou que estava tendo uma alucinação, pois enxergou um estranho ser etéreo, envolto em sombras negras, simplesmente brotar do chão, próximo ao cavalo do comandante imperial. A criatura avançou até o animal e, com um golpe seco de suas garras, arrebentou o freio da montaria, açoitando o lombo do garanhãoem seguida. Atoreflexo, repentinamente descontrolado, o cavalo disparou ensandecido e a toda velocidade para um ponto além do campo de batalha, dando a impressão de fuga de seu comandante, até mesmo para os próprios soldados imperiais que, convenientemente, se desconcentraram da luta.

Neste momento, aliado ao fato de que a cavalaria reserva dos farrapos se juntava ao combate, dezenas de outras criaturas de sombras se materializaram por toda a coxilha. E, como carniceiros invisíveis, eliminaram um a um os soldados inimigos. Só voltaram para as profundezas ao findar da batalha.

O resultado disso foi que os republicanos revoltosos permaneceram quase intactos, enquanto os imperiais foram sumariamente aniquilados.

Mais tarde, Bonifácio iria descobrir que ninguém mais, além dele, vira os tais seres de sombras, que julgou serem demônios frutos de uma ilusão de guerra. Uma peça de mau gosto pregada por sua mente afetada pelo calor da refrega.

Mal sabia o ex-escravo que aquilo era fruto de um pacto satânico de sua amada para lhe angariar proteção. E nem que muitas outras vezes ele ainda veria os tais “demônios das sombras”, como passou a chamá-los, em ação.

Neste mesmo dia, na estância do Piratini, Rita de Cássia caiu de cama, vitimada por uma grave doença degenerativa progressiva. Em poucos dias, a jovem mulata estava de pé novamente, mas ela jamais conseguiu se recuperar plenamente e nem se livrar dos incômodos sintomas e das persistentes dores que passaram a assombrar, de modo cruel, os seus dias e noites.

 

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12 de Janeiro de 1840…

Após um acirrado combate campal, as tropas de lanceiros negros do agora coronel Joaquim Teixeira Nunes foram quase dizimadas por completo pelos imperiaisem Santa Catarina.Dosquatrocentos e cinquenta e um homens que a compunham inicialmente, apenas cinquenta sobreviveram e conseguiram voltar para Lages. Dentre eles, Bonifácio Tavares. Outra vez, o negro saíra ileso e sem nenhum arranhão do confronto.

Enquanto isso, no estado vizinho do Rio Grande do Sul, a fragilizada saúde de Rita de Cássia piorou consideravelmente quando a jovem se viu subitamente acometida por uma inexplicável febre, de origem desconhecida, acompanhada por insuportáveis dores de cabeça e pelo surgimento de manchas vermelhas por todo o seu corpo. Receosos de que pudesse se tratar de uma moléstia contagiosa, os atuais mandatários da estância do Piratini ordenaram que a enferma fosse imediatamente transferida para a antiga senzala da propriedade, há tempos desativada e que agora funcionava como celeiro.

 

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14 de Novembro de 1844…

O tempo passou para Bonifácio e seus companheiros. Muitas batalhas foram ganhas e outras tantas perdidas. Mas de todas, ele saíra intacto. Dentre os companheiros, apenas ele continuava ileso, sem nenhum arranhão. Sim. Ele sabia o motivo, embora não fosse capaz de explicá-lo: os “demônios das sombras”. Os assustadores seres das trevas que sempre apareciam do nada, nos momentos em que ele se encontrava em perigo, e, por alguma razão que ele mesmo até então desconhecia, o salvavam da morte, preservando a totalidade da sua integridade física.

Bonifácio até já se acostumara com a presença deles. Por questões óbvias, jamais comentara sobre os seus “protetores do além” com os companheiros de armas ou com quem quer que fosse. Em alguns momentos, o próprio lanceiro tinha a impressão de que estava perdendo o juízo. Porém logo se conformava e seguia em frente.

Naquele dia, no entanto, as coisas pareciam querer fugir do controle.

A revolução encontrava-se em pleno armistício e seu fim começava a ser negociado entre os líderes de ambos os lados. Os lanceiros negros estavam acampados no cerro de Porongos, em uma curva do arroio de mesmo nome, sob o comando do General David Canabarro, quando foram covardemente atacados de surpresa pelas tropas imperiais de Francisco Pedro de Abreu, o Moringue.

O corpo de lanceiros, cerca de uns cem homens de mãos livres, tentou resistir como pode ao imprevisto ataque, contudo foi subjugado e derrotado pela ampla superioridade inimiga, e os seus integrantes foram quase todos mortos. Bonifácio conseguiu eliminar vários soldados imperiais apenas com a adaga, quando, em determinado momento, se viu cercado por cinco deles. Naquele instante, ele achou que a sua hora finalmente havia chegado. E só lembrou dos “demônios das sombras” ao vê-los emergir do solo atrás dos soldados, drenando-lhes as suas energias vitais até a morte. Em frações de segundos, os cinco homens caíram sem vida aos pés do negro. Foi então que uma das criaturas virou-se abruptamente para ele. A sombra apontou para um reduzido grupo de sobreviventes dos lanceiros negros que corria desesperado além da curva do arroio.

Bonifácio entendeu o recado e prontamente também debandou naquela direção.

Enquanto corria, com os enigmáticos vultos sombrios flutuando ao seu redor, o ex-escravo percebeu que ninguém, amigo ou inimigo, podia enxergá-lo. Era como se os demônios lhe cobrissem com uma espécie de manto mágico da invisibilidade.

E assim, com a providencial ajuda do Inferno, ele foi um dos poucos que sobreviveu à chacina.

Naquela tarde, Rita de Cássia sofreu um derrame vascular cerebral que teve como principal consequência a paralisia total de ambas as pernas e de todo o lado esquerdo do corpo da garota moribunda. Ninguém, nem mesmo os curandeiros negros e índios que a visitavam regularmente na antiga senzala para onde fora transferida, conseguia explicar a razão de ela ainda permanecer viva e lúcida, apesar de tudo.

 

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26 de Fevereiro de 1845…

Após serem enviados pelo General David Canabarro para uma importante ação na retaguarda inimiga, os poucos lanceiros negros remanescentes da trágica batalha dos Porongos encontravam-se em marcha, em franco recuo para o noroeste do estado, num local próximo ao Arroio Chasqueiro, situado no Distrito de Arroio Grande. Durante uma rápida parada, foram alcançados por um esbaforido mensageiro que trazia notícias para vários deles. Foi apenas neste momento que as terríveis informações sobre o grave estado de saúde da mulher amada chegaram ao destemido Bonifácio. E elas chegaram de modo avassalador. O mensageiro, ao encontrá-lo, relatou-lhe tudo, sem ocultar nada. Ao tomar conhecimento de tais fatos, Bonifácio inicialmente ficou arrasado. Depois, ao digeri-los melhor, o ex-escravo entrouem desespero. Semconseguir raciocinar direito, ele solicitou uma audiência urgente com o seu comandante, o coronel Teixeira Nunes.

Sendo prontamente recebido pelo superior hierárquico, Bonifácio foi diretamente ao ponto. Ele explicou a situação e pediu a liberação para se deslocar até a fazenda a fim de rever a noiva, nem que fosse pela última vez.

Condoído pela dramática situação do aguerrido soldado que aprendera a admirar e a respeitar, o coronel farroupilha imediatamente consentiu que ele partisse.

Porém Bonifácio mal recolhera os seus pertences, eles foram novamente atacados, de maneira vil e covarde, pelas tropas imperiais de Moringue.

Assistiu-se então, uma exata repetição do que ocorreraem Porongos. Comapenas uma diferença: desta vez os lanceiros negros foram totalmente destroçados. A contenda foi deveras terrível e feroz. Dos cinquenta e quatro integrantes do legendário corpo de lanceiros negros apenas uma meia dúzia sobreviveu a esta última e derradeira batalha, travada já durante as tratativas de paz. O coronel farroupilha Joaquim Teixeira Nunes, um dos maiores lanceiros de seu tempo, como em uma implacável ironia do destino, terminou tombando mortalmente ferido por uma lança manejada pelo braço vigoroso do Alferes Imperial conhecido, entre os seus, como Manduca Rodrigues.

Já Bonifácio Tavares, mais uma vez foi salvo pelos seus sobrenaturais amigos do Inferno, os tais “demônios das sombras”, que, desta feita, não interviram de forma mais ativa no desfecho do combate. Os etéreos tão somente limitaram-se a agarrá-lo e arrastá-lo, literalmente, para fora do campo de batalha, ocultando-o das vistas dos imperiais.

De repente uma densa e providencial névoa formou-se sobre o Arroio Chasqueiro. Bonifácio aproveitou a situação para atacar um cavaleiro inimigo que inadvertidamente galopou em sua direção. Após derrubá-lo e roubar-lhe o cavalo, partiu rumo à estância do falecido coronel Teixeira Nunes no Piratini.

Rita de Cássia, por sua vez, no mesmo instante em que o amado era salvo da morte novamente, piorou ainda mais. De repente, ao tossir, ela sentiu o inconfundível sabor de sangue na boca. Alguns segundos depois, o líquido vital passou a escorrer-lhe pelo nariz e através da urina, num claro sinal de que a moça principiava um irreversível quadro de hemorragia interna. Aos poucos, a jovem começou a sentir-se irremediavelmente fraca. Extremamente fraca. Era como se a sua energia vital estivesse sendo sugada por um vampiro energético invisível. Igualmente ninguém foi capaz de explicar a origem da tal hemorragia e nem da súbita fraqueza que acometeu a debilitada enferma ou como ela, apesar de tanto sofrimento, ainda continuava viva e lúcida.       

 

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01 de Março de 1845…

Após nove anos e alguns meses de uma revolução heroicamente sustentada, a ferro e fogo e pela insuperável determinação dos bravos guerreiros farroupilhas, finalmente foi assinado, pelo General Farroupilha David Canabarro, comandante-em-chefe do exército republicano investido de plenos poderes para representar a República Rio Grandense, no Acampamento Imperial de Carolina, localizado na região de Poncho Verde, o tratado de paz que culminou no fim da guerra. E, por conseguinte, no fim do acalentado sonho de uma república Rio Grandense livre da opressão da corte imperial brasileira.

Neste mesmo dia, o valente lanceiro negro Bonifácio Tavares chegou à estância do finado coronel Teixeira Nunes. No entanto, ele jamais tornou a ver a mulher amada.

O ex-escravo galopava veloz em direção à antiga senzala, onde lhe informaram que Rita de Cássia se encontrava, quando algo, que ele não foi capaz de identificar naquele momento, subitamente materializou-se à frente da sua montaria, assustando-a. O animal relinchou e empinou sobre as patas traseiras de modo tão abrupto e imprevisível que o negro, mesmo a despeito de toda a vasta experiência que detinha na doma de potros xucros, acabou se desequilibrando e caiu ao chão. Então, antes que ele tivesse tempo de esboçar qualquer reação, aconteceu a verdadeira tragédia… O animal continuou na sua trajetória para trás, desabando com todo o peso sobre o pobre infeliz, que teve a maioria dos ossos do tórax esmigalhados.

E assim se deu o trágico fim de Bonifácio Tavares, o mais valoroso e destemido de todos os lanceiros negros.

Antes de dar o último suspiro, porém, ele conseguiu vislumbrar o que assustara o animal daquela maneira, a ponto de induzi-lo a reagir tão violentamente. E qual não foi a sua surpresa ao deparar com um aterrador espectro de sombras que o encarou por uma aparentemente interminável fração de segundo, antes de desaparecer chão adentro.

E o pior de tudo foi que, do seu leito improvisado sobre um pelego velho na senzala abandonada, Rita de Cássia assistiu a pavorosa cena, dominada pela estupefação que terminou por evoluir numa terrível sensação de impotência e inconformismo.

Impossibilitada de pronunciar qualquer som por conta da enorme fraqueza causada pela hemorragia, a moribunda permitiu que uma única lágrima solitária lhe banhasse a face, em um mudo lamento de dor. E, mentalmente, interpelou-se o porquê de tamanha desgraça, ao que uma voz distorcida ecoou diretamente em seu cérebro, enquanto uma sinistra figura envolta em sombras materializava-se a frente dela.

— O pacto foi cumprido. Bonifácio foi protegido da morte enquanto a guerra durou, mas agora que a mesma terminou, o nosso contrato também se encerrou. Chegou a hora de você pagar a dívida contraída ao ter o seu desejo atendido.

E ela finalmente morreu. Porém a sua alma estava fadada a jamais gozar o merecido descanso eterno, uma vez que o seu destino revelou-se muito mais aterrador do que ela poderia sequer imaginar.

Naquele nebuloso dia 1º de Março de1845, ajovem ex-escrava Rita de Cássia, cujo maior pecado de sua curta existência foi amar incondicionalmente o aguerrido lanceiro negro conhecido como Bonifácio Tavares, tornou-se a mais nova conquista do Inferno!