RAGNAROK: O CREPÚSCULO DOS DEUSES

20 de Dezembro de 2012 d.C. (calendário dos homens).

        Aquele já é o terceiro inverno seguido, o décimo segundo mês ininterrupto, cujo frio intenso e ventos cortantes, acompanhados por fortes nevascas que, por sua vez, precipitam-se dos quatro cantos do céu, castigam impiedosamente os Nove Reinos situados em torno do Yggdrasil (árvore ancestral localizada no centro do Cosmo). O Sol enfraquecera a ponto de suprimir toda a alegria do mundo. O caos e a desordem se haviam espalhado pelo Universo, como moléstias contagiosas para as quais não se tem a cura.

        Na sala do trono de Godheim, o mais importante castelo de Asgard – a morada dos deuses –, Odin está um tanto agitado, cercado pelos demais asgardianos. A planície de Ida encontra-se inteiramente congelada e o inverno não fornece pistas de que dará uma trégua. E para piorar, tudo se encontra mergulhado na mais absoluta escuridão.

        Thor ergue Mjolnir acima da cabeça, calando a estrepitosa platéia.

        – Irmãos asgardianos – Odin toma posse da palavra, assim que o silêncio invade o ambiente. – Os sinais são claros e inequívocos. Sabíamos que este fatídico dia chegaria, embora ainda acalentássemos esperanças de poder evitá-lo. No entanto, agora sabemos que o destino jamais pode ser alterado, nem mesmo por nós.

        O alvoroço toma conta dos ouvintes, que boquiabertos, não acreditam, ou fingem não acreditar, no que acabam de ouvir.

        – Infelizmente – ele prossegue, com a voz trêmula. –, tudo à nossa volta indica que estamos vivenciando os profetizados episódios que prenunciam o fim da nossa Era. O inverno tríplice, as guerras, a escuridão e o violento tremor que sentimos esta manhã, nada mais são do que um prelúdio para o temido advento do Ragnarok…

        Uma comoção geral domina os semblantes.

        – E como você sabe que isto é realmente o Ragnarok? – pergunta Njord, o deus dos mares e um dos Vanir (deuses da natureza) reféns dos Aesir desde o final da Guerra dos Deuses, da qual os segundos sagraram-se vencedores.

        – Pouco antes de convocar esta reunião fui informado por Hugin e Munin – Odin aponta para os dois corvos mensageiros a um canto da sala. – de que o tremor que todos nós testemunhamos, e que já sabemos abalou as estruturas dos Nove Reinos, registrou o seu epicentro em Midgard (Terra), tendo como causa principal a eterna e autodestrutiva guerra, desprovida de sentido, dos seres humanos que, a despeito de todas as nossas advertências sobre os perigos de tal atitude, mesmo assim resolveram detonar uma das suas nefastas ogivas nucleares.

        – Este fato isolado não seria tão grave se a explosão se tivesse restringido somente à dimensão mortal, mas infelizmente não foi assim que aconteceu – Thor prossegue. – Ela foi tão violenta que também trouxe sérias consequências a esta região do Universo. O abalo cósmico decorrente, aliado à inesperada consumação de Sol e de Mani (Lua), ambos perseguidos e devorados pelos malditos Skoll e Hati, foi tão devastador que terminou por libertar Loki e seus primogênitos das prisões eternas que os encarceravam. Esta é a verdadeira razão da funesta escuridão que neste momento nos envolve.

        Aquela nova informação provoca o mesmo efeito que uma bomba-relógio entre os deuses.

        – Fenris está a solta? – Tyr indaga, com o semblante alterado. Desde que tivera a mão direita devorada pelo lobo gigante, o corajoso deus ansiava por vingança contra o abominável filho de Loki.

        – Ele não só está liberto – Thor antecipa-se ao pai. –, como neste exato momento marcha, juntamente com as suas amaldiçoadas irmãs Jomungard e Hel, contra nós.

        – Por Odin! – exclama Vidar, pego de surpresa. – Isto é terrível! Precisamos detê-los antes que cheguem à fronteira de Asgard…

        – Por isso, convoquei esta reunião. – Odin reitera. – Na velocidade em que a marcha das forças do caos se desenvolve, eles entrarão no Vigrid a esta mesma hora de amanhã!

 2

 21 de Dezembro de 2012 d.C. (calendário dos homens).

        O campo de Vigrid, local onde há muito havia sido previsto que o último embate tomaria forma, está repleto de guerreiros prontos para a batalha. De um lado, os Aesir ou asgardianos, os Vanir e os Einhejar (valorosos guerreiros vikings mortos em ação e atuais moradores do Valhalla). E do outro, o incomensurável e aterrorizante exército do caos, composto pelos filhos e monstros seguidores de Loki, pelos Jotuns (gigantes do gelo e do fogo) e pela legião de mortos de Hel (deusa do submundo).

        Os Aesir e seus aliados tremem ante o poderio do inimigo, muitas vezes superior, em número e força. Mas não se deixam abater. Permanecem firmes em suas posições e seguram as armas e artefatos de poder como se fossem extensões de seu próprio ser, prontas para entrar em ação pela última vez.

        De repente, uma nova explosão proveniente de Midgard, seguida por um estrondo e um novo abalo, sacode pela segunda vez os Nove Reinos.

        É o sinal que todos esperam.

        A mais importante batalha da história universal tem início…

       Num ataque simultâneo, os filhos de Musphelhein (mundo do fogo), liderados por Surt, lançam fogo aos Nove Reinos, enquanto os Jotuns e a Legião de Hel avançam juntos sobre Bifrost, a ponte de gelo que estabelece a ligação entre Asgard e Midgard e que não suporta tamanho peso e ameaça ruir.

        Heimdall, o guardião de Bifrost, convoca os Aesir à batalha, com o estridente soar de sua poderosa trombeta de chifre, cujo som é ouvido até nos recantos mais remotos do cosmo. Aos brados de “Por Odin!” e “Por Asgard!” o reduzido, porém valoroso exército do bem se lança ao combate.

      O entrechoque das duas forças faz os alicerces do Universo estremecerem.

      Bifrost não resiste e se desintegra, mas antes de a ponte do arco-íris ruir, muitos gigantes e espíritos das trevas a atravessam, iniciando o cerco aos muros externos de Asgard (construídos pelo gigante Hrimthurs em troca da promessa de casamento com a mais bela das deusas: Freya. O que, para a felicidade da Vanir, fora evitado pela astúcia de Loki, quando este ainda residia na morada dos deuses. Transformando-se em égua no último dia do acordo, ele seduzira o cavalo do gigante de modo a desviá-lo do trabalho. Deste modo, o muro não fora concluído a tempo e o casamento não acontecera. Mas, como cômica conseqüência pela traquinagem, Loki acabara parindo Sleipnir, o cavalo de oito patas que posteriormente seria dado a Odin como um presente).

      Heimdall permanece na ponte até o último instante e morre pouco antes da mesma esfacelar-se em milhões de fragmentos de gelo, transferindo a frente de batalha para os muros. É apenas uma questão de tempo até estes também ruírem.

      Antevendo o desastre, Tyr e Njord, entre outros, partem em sua defesa.

       No Vigrid, Odin e Thor comandam os demais Aesir e os seus aliados na sangrenta luta pela supremacia do Universo. O deus do trovão encontra-se coberto de sangue, mas permanece incansável no manejo de seu mortífero martelo mágico Mjolnir, abreviando as vidas de todos que se atrevem a cruzar o seu caminho.

      A luta prossegue implacável e sangrenta.

      Fenris, o lobo gigantesco, e Jomungard, a serpente marinha que circula o mundo inteiro, chegam ao Vigrid. E então, a situação rapidamente inverte-se. A balança passa a pender agora para o lado dos representantes do caos. Fenris e Jomungard, na terra e no mar respectivamente, e com as forças combinadas, literalmente devoram os inimigos de seu pai.

      O lobo dispara à frente dos exércitos das trevas com a boca completamente aberta, sua mandíbula superior tocando os céus e a inferior a terra. Chamas ascendem de seus olhos e das narinas e queimam aqueles que logram escapar de suas vorazes mordidas. Já a serpente marinha imita o irmão, devorando os que lutam no mar.

      Muitos Aesir, Vanir e Einhejar tombam entre as afiadas presas e garras das cruéis feras titânicas. Compreendendo a desvantagem dos defensores, os Jotuns adquirem um novo fôlego e, de assalto, investem contra as tropas asgardianas.

      Vislumbrando o fim de seu reinado e da própria existência, Odin incita Sleipnir a galopar velozmente para cima do primogênito de Loki, enquanto Thor segue para o mar, a fim de enfrentar a escamosa aberração reptiliana.

      Os muros de Asgard finalmente cedem e o exército do caos invade a planície de Ida, atracando-se com as tropas de Tyr e Njord. De súbito, passam a ameaçar a morada dos deuses e a árvore da vida, Yggdrasil, o pilar dos Nove Reinos.

        Thor nada até Jomungard e, num salto, ao mesmo tempo em que desvia-se de um mortífero ataque da besta marinha, monta em seu pescoço. Os dois iniciam uma luta sem precedentes, mergulhando e emergindo violentamente, vez após outra.

      Odin degladia-se com Fenris, evitando as investidas do lobo e contra-atacando o monstro com sua lança, causando-lhe diversos ferimentos. Mas todos superficiais. 

       Tyr, um dos mais corajosos Aesir, é vencido e termina covardemente assassinado por Garm (lobo guardião do lar de Hel). Que, por sua vez, é morto pelos asgardianos sobreviventes da falange protetora dos muros da cidade divina. Mas esta é derrotada, liberando o caminho para os seguidores de Loki, que chegam ao Yggdrasil, passando a ter de enfrentar agora as valorosas Valquírias que protegem o gigantesco freixo. E só após muitas perdas, igualmente conseguem derrotá-las.

      Thor, com um golpe de sorte, aliado à extrema destreza, mata Jomungard, mas é envenenado pelo sangue da criatura. Mesmo debilitado, o deus do trovão resolve partir ao encalço de Loki, naquela altura, amotinado à base do caule sagrado, pronto para destruí-lo. Thor corre, mas não chega a tempo de impedir que o embusteiro desfira o primeiro golpe. O freixo estremece, ressentindo-se da agressão.

      Sucessivas explosões nucleares, provenientes da Midgard, deflagram uma onda de novos abalos cósmicos em todos os Nove Reinos, que começam a sucumbir, um após o outro. É a humanidade se autoexterminando no mais hediondo holocausto da história.

      Em Asgard, assim como no Vigrid, os combates ficam ainda mais acirrados. Os seus protagonistas concentram as últimas energias na armagedônica contenda.

      Repentinamente, o céu se escurece ainda mais, quando as estrelas começam a cair em Midgard, que é finalmente consumida pelo fogo e depois tragada pelo mar, junto com a raça humana. Apenas dois humanos, Lif e Lifthrasir, sobrevivem à hecatombe nuclear que devasta a dimensão dos homens, protegidos sob as raízes do Yggdrasil.

      Thor avança sobre Loki e o mata, expirando logo em seguida.

      Após uma acirrada batalha, Fenris sobrepuja Odin, ferindo-o fatalmente, antes de engoli-lo. No último suspiro, de dentro da barriga do monstro, Odin assiste ao seu filho Vidar rasgar a boca do lobo, matando-o.

      E então, o silêncio e a escuridão prenunciam ao deus dos deuses o descanso e paz eterna a que somente os mortos têm direito. A profecia se cumpre e o ciclo do Ragnarok e do Universo como o conhecemos finalmente se encerra.

 3

       Num sobressalto, Odin retorna à realidade. Ofegante e terrificado, o abalado Aesir encara Sybil, o relutante espírito do Volva morto, a quem ordenara que lhe revelasse o futuro.

      – O vosso destino vos foi revelado. Assim se dará o Ragnarok, também conhecido como Crepúsculo das Eras, a grande batalha final entre a ordem e o caos, em que os representantes da primeira serão derrotados e o Universo será destruído, para só então renascer das próprias cinzas, iniciando-se um novo ciclo… Até o próximo Ragnarok! – afirma o oráculo, se esvaindo em fumaça e sumindo da presença do atônito asgardiano.

      O dia está terrivelmente frio. Odin, ainda trêmulo e assustado, não presta atenção a este detalhe. Nem ao fato de que aquele já é o terceiro inverno ininterrupto. Ainda com a reveladora visão apocalíptica na mente, ele levanta do trono, decidido a se esquentar primeiro para, em seguida, tomar as providências necessárias na tentativa de evitar que a aterradora profecia se cumpra.

      O que nem sequer imagina é que já pode ser tarde demais…

      Tarde demais por que, naquela mesma manhã gelada, o calendário adotado pelos habitantes humanos da Midgard, negligentemente ignorado pelos Aesir e seus aliados, assinala a fatídica data do penúltimo dia: 20 de Dezembro de 2012.