Samanta

Conto publicado em parceria com Jocir Prandi

Sexta-feira – 23h10min

O carro devora o asfalto, quilômetro a quilômetro. Mãos ao volante, Samanta pisca os olhos, tentando afugentar o sono. O mais prudente seria estacionar e dormir um pouco, mas a garota persiste, consciente de que logo adentrará a cidade. Em poucos minutos estará em casa, dará um abraço apertado no pai, e poderá refestelar-se à vontade no aconchego de sua cama.  

De repente, numa das últimas curvas do caminho, surge um vulto no meio do asfalto. Quando Samanta o enxerga, já é tarde demais. Ela pisa forte no freio, e o veículo derrapa na pista molhada. Um baque violento e seco, um corpo estatelado no chão. O carro finalmente pára.

Samanta desce, atordoada, e se aproxima, a fim de socorrer a vítima. Abaixa-se ao lado do atropelado e assusta-se ao notar que ele exala um mau cheiro terrível. E, mais ainda, ao reparar em seu aspecto. Todo deformado e ensanguentado, o homem parece morto.

De repente, um movimento. Ele abre os olhos. Samanta sente um arrepio.

Aquele olhar vítreo… Aquela expressão faminta… Aquela cor acinzentada da pele… Aquele cheiro pútrido, de cadáver em decomposição… Tudo naquele estranho faz lembrar um…

Um zumbi! Expressão faminta, pele pálida, ele tenta se erguer e agarrá-la, grunhindo, feroz e selvagem como um bicho. Ato reflexo, Samanta joga-se para trás. Desequilibrada, cai sentada. O monstro, com movimentos grotescos, não consegue se levantar. Parece estar com a coluna vertebral partida.

Samanta respira aliviada. Prepara-se para levantar-se e fugir dali, quando um barulho atrás de si atrai a sua atenção. Antes de se virar, a garota sente uma mão em seu pescoço. Uma mão fria, áspera, que a puxa. E outra, em sua face. E mais uma, na cintura. Antes que possa esboçar qualquer reação, inúmeras mãos agarram-na com violência.

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Sábado – 01h40min

Marcos Brenner caminha de um lado para o outro da sala, preocupado com a filha. Samanta já devia ter chegado da viagem à cidade vizinha, onde foi visitar a mãe. Desde que ele se separou, há dois anos, somente os dois, pai e filha, vivem na casa, e somente em Samanta ele concentra seu afeto e suas preocupações.

Na televisão, o apresentador Jô Soares entrevista um escritor de ficção fantástica em início de carreira. Bruscamente, o programa é interrompido, cedendo lugar a um informe urgente, com enfoque na assombrosa invasão de estranhas criaturas em uma pequena cidade gaúcha. E, enquanto o apresentador fala com voz grave, um vídeo de baixa qualidade, certamente produzido por um celular, mostra seres grotescos atacando um homem e devorando o seu cérebro. E o pior: a situação parece estar se repetindo em todo o país. As autoridades já estão falando em uma espécie de epidemia sintomática. Não se tem informações sobre a causa desse terrível problema.

Brenner assiste, pasmo, ao informe. A inquietação com a demora da filha aumenta ainda mais.

Súbito, ouve barulho de vidro quebrado nos fundos da casa. Corre para lá, e o que vê deixa-o perplexo: um homem de pele acinzentada, todo cortado, sem a mandíbula inferior e coberto de sangue. O monstro encontra-se com meio corpo para dentro da janela e faz menção de atacá-lo. Num impulso de desespero e autodefesa, o dono da casa apanha uma cadeira e a quebra no rosto deformado da criatura, que momentaneamente desaparece da janela.

Mas o alívio dura pouco. Outros zumbis arrombam a porta da frente e invadem a residência, dirigindo-se a ele com os braços esticados, em meio a grunhidos selvagens.

Apavorado, Brenner corre para o quintal. De esguelha, avista o machado na meia-água da lenha. Apanha-o e, depois de acirrada batalha, com uma dúzia de golpes visando sempre à cabeça das criaturas, consegue livrar-se de sete mortos-vivos. Mas, quando se vira, pronto para eliminar o oitavo, estaca ante a visão mais dramática de toda a sua vida. Diante de si, agora transformada em uma daquelas horripilantes criaturas, está sua filha adorada. O machado permanece erguido. Lágrimas se formam nos olhos de seu dono.

Samanta… A sua querida Samanta é agora um morto-vivo sem alma nem coração!

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Segunda-feira – 20h30min

Marcos Brenner assiste ao Jornal Nacional, apreensivo, atento à entrevista coletiva cedida por um grupo de renomados cientistas do governo sobre a epidemia dos zumbis. Eles afirmam que os infectados buscam cérebros para comer por instinto de sobrevivência, já que é a única maneira de se manterem vivos. A boa notícia é que já está em fase de testes um antídoto capaz de reverter tão devastadora doença. É apenas questão de dias até a vacina ficar pronta.

Ao final da entrevista, Brenner levanta-se e vai aos fundos da casa, até o quartinho da empregada, dispensada por alguns dias sem maiores explicações. Tira uma chave do bolso e destranca a porta, espiando Samanta.

Ao notá-lo, a garota morta-viva encara-o, parecendo faminta. Debate-se com ferocidade e rosna para ele qual animal selvagem, tentando libertar-se das grossas cordas que a prendem. Alheia à dor, força as cordas e, a muito custo, solta uma mão, tendo parte da carne da mesma arrancada pelo esforço. Tenta soltar a outra mão, mas não consegue. Aos poucos, vai se aquietando.

Hesitante, Marcos entra no quartinho, para prendê-la novamente. Sente um aperto na garganta, ao ver a filha naquele estado monstruoso. Se pudesse ajudá-la… Pelo que ouviu na televisão, sabe que ela não resistirá por mais que dois ou três dias, a não ser que adquira novos neurônios comendo um cérebro humano.

Arquejante, a garota mantém a cabeça baixa, parecendo chorar. Brenner se aproxima, comovido. Leva a mão trêmula em direção aos cabelos da filha, quando, bruscamente, Samanta impulsiona a mão livre em sua direção. Ela só não o agarra porque as cordas limitam seus movimentos.

Coração aos pulos, entre lágrimas, Brenner pensa em como fazer para dominá-la sem se deixar contagiar, quando ouve a campainha tocar, seguida por insistentes batidas na porta da frente. Rezando para que Samanta mantenha silêncio, vai atender.

É um senhor de idade, caseiro de uma chácara vizinha. Diz ter ouvido gritos quando passava. Marcos pensa em dar uma desculpa qualquer para livrar-se dele. Entrementes, hesita, enquanto pensamentos macabros bombardeiam sua cabeça. Convida o homem para entrar e o conduz ao quartinho onde está a filha doente.

Gritos oriundos do recinto sobressaltam o caseiro, que, sem pesar as consequências de seu ato, invade o quartinho, dando de cara com a garota zumbi. Samanta usa a mão livre para agarrá-lo e puxá-lo para junto de si. O homem grita e, no auge do desespero, com um forte puxão, consegue livrar-se da garota, correndo em direção à porta. Mas para a sua aflição, tem o caminho subitamente bloqueado pelo dono da casa.

No semblante de Brenner, angústia e desespero. Em suas mãos, um pedaço de pau, que atinge o velho no estômago, fazendo-o dobrar-se de dor. E, antes que o caseiro reaja, é empurrado de volta para as garras de Samanta. Com as feições desoladas, mas com a resignação e firmeza de quem acredita cumprir seu dever de pai, Marcos Brenner o segura, enquanto Samanta passa a devorar com voracidade animal o cérebro do pobre infeliz.

Ainda sujo de sangue, após ter dado sumiço nos restos mortais do vizinho, Brenner deixa a filha, agora mais calma e com a fome saciada. Fecha a porta e volta para a sala. Vai até a mesinha do telefone e apanha a agenda. Por mais horror e repugnância que lhe cause, é sua obrigação pensar na próxima refeição da filhinha querida.